Banda podre

Por Maria Inês Dolci

“Espere um instante que vou verificar se há alguma ocorrência.” Certamente, caro internauta, você já ouviu isso do seu provedor de acesso da banda larga. Se não, bem, você é um usuário de sorte.

Já irritado por ter ficado sem Internet e e-mail o dia todo, em horário comercial, o profissional liberal, que trabalha em casa, aguardou impacientemente a resposta da atendente da Vivo (que poderia ser, a propósito, de qualquer outra operadora).

A resposta foi uma palavra com quatro sílabas, “manutenção”. E mais nada, a não ser mais uma informação agradável: a previsão era que o serviço fosse normalizado às 24 horas.

O consumidor, ainda mais insatisfeito, perguntou por que não houve qualquer aviso a respeito do problema em região de São Paulo. Não ouviu nenhuma resposta. Reclamou do desrespeito, da desconsideração com alguém que pagava suas contas em dia.

O silêncio se tornou ensurdecedor. Pesado, desagradável. Então, para encerrar aquela não conversa, monólogo humilhante, questionou: “Então, não há nada a fazer?”. – Só esperar, tripudiou a profissional da Vivo.

É evidente que foi fornecido o número do protocolo do atendimento, até porque é mera formalidade que não levará a nenhuma providência contra o descaso da operadora.

Na quarta-feira, dia 11, em São Paulo, será realizada a primeira manifestação pública contra os abusos e a falta de qualidade das telecomunicações, em frente à sede da Agência Nacional de Telecomunicações, na rua Vergueiro.

O objetivo é ampliar o movimento que já ocorre nas redes sociais, como a twitada contra a má qualidade da banda larga.

Lamentavelmente, não podemos contar com o Ministério das Comunicações nem com a Anatel, que cruzam os braços quando deveriam defender os direitos dos consumidores.

A leniência com as teles já ultrapassou todos os limites. Não há como entender por que estas companhias fazem gato e sapato dos usuários, com atitudes que beiram o desprezo e a ironia.

A universalização da banda larga, prometida pelo governo federal, esbarra em vários entraves, como o reduzido investimento na Telebrás; falta de medidas concretas para o compartilhamento de redes; tratamento da infraestrutura pela lógica do mercado (concentração de redes nas localidades e regiões de maior retorno financeiro).

O acesso a telecomunicações de qualidade não é um luxo, algo supérfluo, para ser tratado desta forma pelas autoridades. Sem conexão de qualidade, sofrem a educação, a ciência e a economia.

Hoje, não é possível sonhar com o desenvolvimento sustentável sem uma infraestrutura tecnológica de altíssimo nível. O que fazer quando não nem sequer razoável?

A omissão dos agentes que deveriam fiscalizar e cobrar a prestação de serviços de acordo com o que está firmado em contrato é vergonhosa. Afeta a competitividade brasileira em um mundo globalizado e conectado, no qual os países disputam a tapa os investimentos produtivos.

Serviços públicos – com o Boletim de Ocorrências, BO, on line, são oferecidos em estados como São Paulo. É possível consultar, na Internet, saldo de Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), situação fiscal e previdenciária, multas em rodovias estaduais e federais. É possível movimentar administrar contas bancárias sentado à frente do computador.

O trabalho em casa, conhecido como home office, beneficia profissionais que, desta forma, não perdem horas no trânsito das grandes cidades, são menos expostos à violência e ao estresse do transporte coletivo lotado.

Como confiar, contudo, que o trabalho chegará a seu destino, se a banda larga, na verdade, é um ‘banda podre’, que desafia a tudo e a todos, com o beneplácito de quem deveria proteger os interesses dos cidadãos, não dos maus prestadores de serviços?