Maria Inês Dolci

Defesa do Consumidor

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A advogada Maria Inês Dolci é coordenadora institucional da ProTeste. Atua há mais de 20 anos na área de defesa do consumidor e é autora e coautora de várias publicações na área.

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Lá vem o trem

Por Folha

Eu quero viajar de trem. Civilizadamente, como nos lugares mais desenvolvidos do mundo.

Sair de casa com a família, esperar a chegada do trem na estação. E saber que amigos e familiares estarão nos esperando nos destinos de nossas viagens.

O trem já foi tão importante, que se incorporou à cultura popular em Minas Gerais – trem bão!; meus trens; trem de cozinha; trem de guerra.

No cancioneiro popular, também brilhou: o Trem das Onze, do Adoniran Barbosa; o Trem Azul, do Lô Borges; O Trenzinho do Caipira, de Heitor Villa Lobos.

Hoje, contudo, ferrovias transportam cargas, mas não pessoas. Apesar disso, o modal ferroviário é fundamental nos deslocamentos de milhões de trabalhadores nas grandes cidades brasileiras, como São Paulo e Rio de Janeiro. Na capital paulista, os trens de superfície estão interligados ao metrô, ampliando a cobertura da malha.

Faltam, entretanto, opções para viajar entre cidades, estados e países vizinhos. Onde está o Trem de Prata, que ligava  Rio de Janeiro e São Paulo?

Claro, não chegamos a ter um trem com a história e o glamour do Expresso Oriente, que inspirou a escritora Agatha Christie a escrever um de seus melhores livros policiais, sucesso também no cinema.

Contávamos, contudo, com um meio de transporte seguro, confortável e que poderia ser bem veloz.

Fala-se e escreve-se muito sobre o trem-bala, até agora uma boa ideia que não saiu do papel. A propósito, cada vez que o projeto volta à discussão, seu custo total sobe alguns bilhões de reais. Um autêntico fenômeno da multiplicação do orçamento.

Antes de pensar neste megaprojeto, porém, por que não investir em trens velozes, confortáveis, com serviços como restaurante, bar, carro-leito? Menos bala, mais realidade.

Seriam excelentes opções aos automóveis, ônibus e aviões. Dentre outras vantagens, reduziriam os acidentes de trânsito, pois este tipo de transporte, com manutenção adequada, é dos mais seguros que existem.

A opção preferencial por automóveis, ônibus e caminhões é uma das responsáveis pelas 50 mil mortes anuais em acidentes de trânsito, além dos que ficam afastados do trabalho, temporária ou permanentemente.

Ferrovias, então, trariam ganhos imediatos para o sistema público de saúde, ao menos nas viagens intermunicipais e interestaduais.

Além disso, como a aviação regional não decolou como deveria, até por falta de aeroportos adequados e de preços das tarifas, alguns trajetos para o interior poderiam ser completados por via ferroviária. Um grande avanço que copiaria tempos em que tivemos um bom serviço de trens de passageiros.

Só assim o Brasil terá uma infraestrutura digna desse nome. Já perdemos muito tempo e desperdiçamos dinheiro, por exemplo, transportando exclusivamente em caminhões safras agrícolas, muito mais adequadas aos trilhos do que às rodovias.

Temos que dar a mão à palmatória e reconhecer que erramos em menosprezar o trem, em detrimento dos veículos automotivos.

Há demanda para todos os meios de transportes, incluídos aí bicicletas, motos, vans, ônibus, aviões, trens e caminhões. Em um país repleto de vias hídricas, devemos utilizar também transporte aquático, lacustre e fluvial, de boa qualidade, com fiscalização e segurança.

Um sistema misto deveria combinar as melhores características de cada meio de transporte.

Eu quero viajar de trem, de ferryboat, de barco, de catamarã, de bicicleta, de trem, de ônibus e de avião, nos 8.500 mil quilômetros quadrados do Brasil.

O trem-bala seria bem-vindo, é claro, mas, se não sair do papel, tratemos de oferecer outros tipos de trens velozes. O mercado necessita disso com urgência, para os negócios e o turismo.

Como preconiza o grande cantor e compositor mineiro Lô Borges: “Você pega o trem azul/o sol na cabeça/o sol pega o trem azul/ você na cabeça/um sol na cabeça”.

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